
Me interesso muito por processo criativos, e como diversos artistas de inúmeras áreas traduzem ao seu modo variadas questões.
Talvez por ser questionado como criei algo, logo após a apresentação de um espetáculo ou filme. Ou quem sabe talvez, minha curiosidade venha por eu me encantar com os cantos obscuros, desconhecidos e mágicos do ato e exercício de criação.
Existem muitas formas de criar, talvez algumas centenas de métodos, e uma infinidade de misturas.
Contudo, o magnífico é que não existe certo ou errado. E mesmo que as coisas criadas aparentem serem iguais, e seus métodos sejam quase repetitivos, ainda assim não o são.
Meu questionar é em busca das motivações, do modo de olhar, de como se colocam em estado de criação os artistas que tentam traduzir as coisas quase imperceptíveis da vida.
Quais são os disparadores? Quais as formas e meios pelos quais essas pessoas se colocam em situações e momentos aos quais sentem-se mais preparados para o deslumbramento e para a ação do ato de criar.
Tenho a certeza que o meu fascínio em pensar sobre o ato de criação, é perceber que ele é um tipo de êxtase emocional cognitivo que nos permite comunicar o inefável.
O ato de criar é modo de ação e forma de captar e "organizar" a existência de lampejos de sensibilidades que nos atravessam na vida.?O ato de criar é a tentativa mais sincera que temos de provar que é possível a comunicação de um cérebro ao outro, de um coração ao outro. De um ser ao outro. Mesmo que não saibamos onde o que foi criado os toque completamente. Porém, temos a certeza que por segundos (eternos) nos conectamos. E não importa se com um ou com muitos.
Os processos criativos que mais me espantam são os que têm infinitas capacidades de traduzir algo simples, cotidiano, algo quase banal em alguma coisa que transcende. Pegar um dia normal, uma ação corriqueira, e transformar em um livro, filme, dança.
O cinema argentino tem realizado isso com excelência ao longo dos anos, em inúmeros filmes.
Coisas simples e quase imperceptíveis do nosso dia a dia tornam-se a linha central e pulsante de um "épico" rotineiro.
Esses filmes criam espécies de cartografias para as mentes, para que os momentos da vida que poderiam passar desapercebidos não o sejam.
Depois de assistir um filme desses, nos damos por conta (mesmo sem nos atentar a isso) que já estamos a perceber momentos ínfimos da nossa vida como algo digno de ser contemplado. Vemos momentos de nossa existência antes tida como algo irrelevante, como cena de cinema.
E assim, um simples caminhar pela rua, um abrir de portas ou ler um jornal sentado no banco da praça tornam-se outra coisa. Já não são somente partes cotidianas da vida, mas momentos indispensáveis da vida. E quem podem ser definitivos em nossa trajetória.
Afinal, quem disse que os pontos de mudança em nossa vida não podem vir de algo banal e incrível ao mesmo tempo. Basta o olhar e a observação.
Os artistas que desenvolvem esse tipo de processo têm uma coisa em comum, uma excepcional capacidade de observação, aliada à habilidade de destilar somente o necessário para ser apresentado em sua obra.
E sempre me pergunto como eles olham o dia a dia? Como fazem isso? Como aguçam a sua percepção?
Como criar a partir da observação das pequenas ações que cruzam nosso caminho? Como tentar ampliar a sensibilidade para ver o que sempre vejo como uma cena inesquecível?
Eu criei um disparador para mim que funciona bem e compartilho aqui com vocês.
Ouvir música em fones de ouvido sentado em lugar escolhido a esmo, e olhar sem pressa tudo o que acontece.
Foi assim que sai por aí inúmeras vezes ouvindo uma música (como a que é sugerida ao lado do título desta coluna) e me sentar em algum local e apenas olhar o movimento.
Depois de alguns momentos, passada a euforia e o tédio, ambos iniciais, a mente se expande e começa a apresentar os novos mundos onde antes só víamos o conhecido.
É incrível ver como as coisas se encaixam. É "perder" tempo para "ganhar" vida. Olhar demoradamente uma coisa. Descobrir detalhes e ver como aquele sinfonia que ocorre todo dia na nossa frente pode ser gigante e com muitos sons e falas. E com muito mais significados que nem nos damos por conta.
Seja o senhor apressado, mas que tem dificuldades para andar, e insiste na pressa. Qual o motivo?
Qual a razão para a menina sorrir para a tela do celular e hesitar em responder, mas responder mesmo assim? Porque digitar tão apressadamente?
São tantas e tantas coisas que acontecem, que meus dedos neste instante não acompanham as recordações desses momentos que vivi, e que minha mente não esqueceu.
O interesse pelo processo criativo me levaram a estes momentos, simples e marcantes. Alguns já fizeram parte de cenas de filmes, espetáculos e até poemas.
Criei filmes em minha mente que já me recompuseram de momentos de fraquezas.
O ato de criar me fez perceber que muitas vezes é preciso um olhar descomprometido, distraído, para realmente poder ver. Que é preciso um estar perdido para criar significados que nos salvem da "banalidade" de uma vida.
Urge o agora, para (re)criar o "vazio" e as delicadezas do mundo.
Até o próximo encontro.
P.S. Deixo aqui o link de um peça de um artista que admiro muito e que fez com maestria o que viu passar pela rua.